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Obesidade e a gordura no fígado em crianças e adolescentes

Vera Lucia Perino Barbosa, Dra. em Ci√™ncias da Sa√ļde
Tatiana Silva, Nutricionista e Especialista em Obesidade

Com o aumento alarmante da obesidade em crian√ßas e adolescentes, podemos observar cada vez mais cedo o surgimento de comorbidades antes vistas s√≥ em adultos. Dentre as principais altera√ß√Ķes associadas √† obesidade, podemos citar a hipertens√£o, dislipidemia, diabetes mellitus, problemas psicol√≥gicos, ortop√©dicos, esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica entre outras.

Estima-se que s√≥ as DCNTs contribu√≠ram com quase 60% das mortes (31.7 milh√Ķes) no mundo. Em 2020, a previs√£o √© de que 73% das mortes sejam atribu√≠das a estes agravos. Estes n√ļmeros envolve um alto custo econ√īmico para o indiv√≠duo, a fam√≠lia e a sociedade.

Fígado

Uma das doenças que está alarmando os especialistas é a esteatose hepática não alcoólica (non alcoholic fatty liver disease = NAFLD), chamada também de gordura no fígado. A doença é quase idêntica ao dano hepático vivido por pessoas que consomem muita bebida alcoólica, mas, neste caso, o estrago está feito não pelo álcool, mas pela má alimentação e excesso de peso.

A esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica √© uma condi√ß√£o do f√≠gado causada por ac√ļmulo de gordura. Literalmente √© sin√īnimo de f√≠gado gorduroso. Nosso f√≠gado possui normalmente pequenas quantidades de gordura, que comp√Ķe cerca de 10% do seu peso. Quando o ac√ļmulo de gordura excede esse valor, estamos diante de um f√≠gado que est√° acumulando gordura dentro do seu tecido. O f√≠gado gorduroso parece ser o mais novo componente da epidemia da obesidade, principalmente entre crian√ßas e adolescentes.

No Instituto Movere em um dos grupos das 113 crianças que foram avaliadas por ultrassonografia, 30% apresentaram gordura no fígado. De acordo com a Sociedade Brasileira de Hepatologia, a prevalência da doença em crianças foi encontrada entre 15,7% e 77%, de acordo com o método utilizado na avaliação.

A esteatose hepática não alcoólica está estritamente relacionada com a Síndrome Metabólica em crianças e adolescentes obesas, e a prevalência chega a 28%. No Instituto Movere, dentre as crianças e adolescentes que realizaram os exames bioquímicos, 12,5% apresentavam os critérios para diagnóstico de síndrome metabólica.

Excesso de peso, s√≠ndrome metab√≥lica, e m√° alimenta√ß√£o, exercem grande influ√™ncia no desenvolvimento da esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica. Ao imaginarmos o f√≠gado gorduroso, logo pensamos nas gorduras. Por√©m, por incr√≠vel que isso possa parecer, n√£o √© somente a gordura a grande vil√£ do f√≠gado de nossas crian√ßas. J√° se sabe que nesses casos o excesso de carboidratos, principalmente o a√ß√ļcar, s√£o os principais respons√°veis pelos dep√≥sitos de gordura no f√≠gado. A Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde (OMS) recomenda que o a√ß√ļcar de adi√ß√£o n√£o ultrapasse 10% das calorias di√°rias.

Em outro grupo de 93 crian√ßas atendidas no Instituto Movere, por meio do question√°rio de frequ√™ncia do consumo alimentar aplicado no in√≠cio do estudo, observou-se que 74% das crian√ßas e adolescentes apresentavam alto consumo de refrigerantes e sucos industrializados e 57% elevada ingest√£o de doces. Soma-se a isto o consumo de alimentos de alto √≠ndice glic√™mico e ricos em gordura saturada. Corroborando com estes dados, 62% das fam√≠lias das crian√ßas e adolescentes apresentaram alto consumo de a√ß√ļcar refinado em suas resid√™ncias.

As estrat√©gias para o tratamento da esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica consiste em redu√ß√£o gradual do peso gordo, controle dos n√≠veis de glicemia, insulinemia, colesterol e triglic√©rides. A interven√ß√£o deve ser multidisciplinar, com orienta√ß√£o nutricional, exerc√≠cios f√≠sicos e interven√ß√Ķes psicol√≥gicas.

No Instituto Movere as crian√ßas e adolescentes obesos com suas fam√≠lias passam por tratamento interdisciplinar, obtendo √≥timos resultados ap√≥s 1 ano de interven√ß√£o. Nos fatores de risco para s√≠ndrome metab√≥lica, 90% das crian√ßas e adolescentes diminu√≠ram significativamente a circunfer√™ncia abdominal. Dentre os fatores de risco para esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica relacionados √† alimenta√ß√£o, 98% das crian√ßas e adolescentes reduziram o consumo de refrigerantes, 95% diminu√≠ram o consumo de doces e 91% dos pais reduziram o consumo de a√ß√ļcar refinado em suas resid√™ncias.

As mudan√ßas de h√°bitos e comportamentos que as crian√ßas e adolescentes alcan√ßaram por meio das interven√ß√Ķes realizadas no Instituto Movere foram essenciais para a redu√ß√£o dos fatores de risco para a esteatose hep√°tica n√£o alco√≥lica e para doen√ßas associadas √† obesidade infantil.