As consequencias da “superproteção” e a obesidade infantil
28 de julho de 2014 - Ivo Mortani

Ivo Mortani Jr, Psicólogo Clínico

“Para que eu deixaria meu filho ajudar em tarefas em casa?” – questiona uma das mães, já outra completa – “a minha filha não ajuda em nada” – enquanto outra diz – “estou preocupada só de ele estar sozinho na quadra com as outras crianças do projeto”. Os relatos citados acima apareceram nos encontros realizados com pais, mães e cuidadores no Instituto Movere, e o assunto abordado era superproteção.

Nos atendimentos da área de psicologia do Movere, a demanda específica tratada é a prevenção e tratamento da obesidade, neste caso, sendo uma doença multifatorial, pode-se imaginar que as temáticas que emergem nos grupos realizados na instituição são diversas, e de fato são, mas o assunto “superproteção” permeava os encontros com freqüência significativa.

Em diversos estudos e artigos sobre superproteção são apontadas certas conseqüências do excesso de proteção mantido por pais, mães e cuidadores, como tendências para insegurança, falta de limites, falta de autonomia, insegurança vividos pelas crianças.

Um estudo de 2012 realizado por pesquisadores da Universidade do Porto, em Portugal, apontou que o excesso de proteção dos pais pode sim provocar maior ansiedade nos filhos e até mesmo causar obesidade. A explicação para tal afirmação é de que há muitas crianças e adolescentes que buscam diminuir o estresse por meio da alimentação excessiva. A atitude superprotetora dos pais gera medo e insegurança nas crianças e adolescentes, consequentemente, aumentando o cortisol, o hormônio do estresse. Assim sendo, cada indivíduo procura uma estratégia diferente para combatê-lo.

Estas tendências provocadas pelo excesso de proteção se mostravam claras nos grupos realizados com as crianças e adolescentes no Movere, pois os relatos destes participantes sempre estavam associados à baixa autoestima, ansiedade, autoconfiança e falta de limites.

Na prática clínica, o trabalho com os grupos realizado no Movere foi norteado com base nestes achados, particularmente nos grupos realizados com pais, mães e cuidadores, o uso de orientações e informações sobre a temática gerou excelentes resultados.

Nos encontros era proporcionado aos pais, mães e cuidadores reconhecer e entender a importância de acreditar que a criança tem capacidade para executar tarefas, e o que estas representam para as mudanças no comportamento e na educação das crianças. Para estes pais, mães e cuidadores, entender, por exemplo, que uma simples distribuição de tarefas auxilia na autodisciplina e ajuda a construir a autoconfiança, permite a conscientização sobre a temática.

Com o emergir de conteúdos relacionados aos cuidados e a educação, pais, mães e cuidadores podiam refletir sobre o relacionamento com os filhos, reconhecer se realmente estava ocorrendo uma preocupação excessiva em torno do bem estar do mesmo, e de como esta situação muitas vezes poderia afetar o desenvolvimento emocional, gerando comportamentos de infantilização e dependência.

Os resultados da intervenção nos grupos do Movere aparecem nos relatos de pais, mães e cuidadores, que apontam diversas mudanças de comportamento, entre elas, melhora no relacionamento com os filhos, imposição de limites e maior disciplina em casa, mais atenção aos filhos e principalmente diminuição de comportamentos superprotetores. Em conseqüência da mudança comportamental dos pais, as crianças e adolescentes relataram que estavam menos tímidos, mais confiantes, aprendendo a lidar com a raiva e que estavam gostando das mudanças corporais, que podiam usar roupas menores, que estavam gostando do próprio corpo.

Abordando esta temática e apresentando os dados, me recordo de uma coluna da Rosely Sayão, que utilizei em um dos encontros, chamada “Medo de Crescer”, no qual destaco o seguinte trecho para finalizar: “Os primeiros (passos) podem ser acompanhados, apoiados, apenas para oferecer tranquilidade para que, em seguida, os filhos possam continuar sozinhos. O que não vale é ampará-los antes que caiam ou impedir que caminhem. Não foi assim com os primeiros passos reais, não deve ser assim com essa nova fase. E sempre é bom lembrar: crescer dói, mas é preciso.”.

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