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Lutando contra a obesidade infantil.
Vera Lucia Perino Barbosa, Presidente do Instituto Movere
31 de março, 2005
Você provavelmente já escutou que existe uma epidemia de obesidade nos Estados Unidos (entre outras nações), significa que o número de pessoas sobrepeso aumentou bastante nos últimos anos.

Mas você já escutou que isso é um problema também para as crianças? De acordo com dados recentes do "National Center fot Health Statistics", aproximadamente uma de cada cinco crianças nos Estados Unidos é sobrepeso.

Infelizmente no Brasil estamos enfrentando também o aumento do sobrepeso e obesidade tanto nos adultos como em crianças e adolescentes.

O aumento da obesidade teve início nos últimos 20 anos, hoje considerado uma epidemia. A última estatística apresentada no dia 16/12/04 pelo IBGE no país sobre obesidade mostrou que 38,8 milhões de brasileiros estão com excesso de peso, isto corresponde a 40,6% da população adulta. Destes 10,5 milhões possuem um índice de massa corporal (IMC = peso/altura ao quadrado) acima de 25 e são considerados obesos.

Em relação às crianças, pesquisas divulgadas recentemente em escolas particulares de São Paulo em 8 mil estudantes com idade de 10 a 15 anos concluíram que 23,28% dos adolescentes estavam com excesso de peso e 8% eram obesos. Tivemos um aumento de 3% para 15% de 1975 a 1997 em crianças. A incidência da obesidade infanto-juvenil cresceu 240% nos últimos 20 anos.

O que tem nos levado a este aumento de peso?

Infelizmente vivemos em um ambiente onde as pessoas engordam por sedentarismo e má alimentação. Pode-se imaginar, num primeiro momento que a obesidade seria exclusiva das classes econômicas mais abastadas, mas estudos recentes mostram, que nas classes de baixo poder aquisitivo, foram observadas as maiores incidências de obesidade nos últimos anos.

Esta tendência se explica justamente pela baixa escolaridade, vida sedentária e alimentação inadequada. é uma população que tem menos informação e capacidade de compreensão, não tem condições adequadas para desenvolver atividades físicas e consome os alimentos mais ricos em gordura e açúcar, que são os mais baratos.

Uma pesquisa realizada pela UNESCO com 10 mil moças e rapazes do País, entre 15 e 29 anos, mostra que mais da metade dos jovens brasileiros (57%) não pratica atividades físicas, e muitos declaram não ter sequer interesse pelos esportes.

A pesquisa feita no Brasil demonstra que a freqüência da prática esportiva é menor entre jovens de classes sociais mais baixas devido à falta de opções nestas comunidades mais carentes. Os motivos para não se praticar esportes muitas vezes é a condição financeira, o tempo (pois precisam trabalhar para ajudar em casa), problemas de saúde, falta de local apropriado e falta de material.

Com o aumento da obesidade, os gastos com a saúde aumentam também. Estima-se que o Brasil já vem gastando 1,45 bilhão com doenças relacionadas à obesidade. Nos Estados Unidos já esta sendo discutido o aumento do seguro de vida para quem apresentar o IMC mais alto.

O que significa ser sobrepeso?

Pode parecer fácil dizer a alguém que ela é sobrepeso, mas não é. Na verdade, a obesidade não pode ser diagnosticada simplesmente olhando para uma pessoa, por que cada um de nós possui um formato de corpo singular, que carrega nosso peso de uma maneira especial. Ser sobrepeso significa ter muita gordura corporal para um formato de corpo particular.

Existem diversas maneiras de classificar e diagnosticar a obesidade. O ideal seria medir ou avaliar a percentagem de gordura corporal por meio da prega cutânea, bioimpedância, ou de técnicas como a DEXA.

Na ausência destas ferramentas para se estimar a percentagem de gordura corporal, usa-se medidas mais simples de peso e altura. Uma das mais utilizadas atualmente se faz através do cálculo do índice de Massa Corporal (IMC ou índice de Quetelet), utilizando-se a seguinte fórmula:

IMC = Peso atual (kg) / altura2 (m2)

Depois de calcular o IMC o resultado deverá ser passado para as tabelas padrões.

Como o total de gordura corporal em crianças muda com a idade, o IMC é então comparado com guias específicos de idade e sexo, baseado em ampla amostra de crianças com até 20 anos de idade.

Baseado nas recomendações atuais de comitês de especialistas, crianças com valores de IMC com percentiles maiores que 85th para sua idade e sexo são considerados com risco de se tornarem sobrepeso, enquanto crianças com percentile de 95th ou acima são considerados sobrepeso.

Para algumas crianças o IMC é um bom indicador de gordura corporal, mas é importante reconhecer que ele não é um indicador direto.

Na verdade para algumas crianças e adolescentes os valores de IMC pode resultar em erro. O músculo pesa mais que a gordura, portanto algumas crianças que tem mais músculos podem apresentar o IMC maior mesmo com uma porcentagem de gordura adequada para a idade.

Quando crianças e adolescentes estão envolvido em algum tipo de tratamento para diminuição da gordura corporal, é importante salientar aos pais, que só o peso na balança não é parâmetro para identificar ganho ou perda de peso. Precisamos ficar atentos ao aumento da estatura e também o ganho de massa magra (músculo).

Quais são as principais causas da obesidade infantil?

Enquanto existem algumas evidências que sugerem que os fatores genéticos (aqueles transmitidos de pais para filhos) cumprem um papel na epidemia da obesidade, comportamentos pessoais e hábitos de alimentação são provavelmente os fatores mais importantes. Vamos conhecer esses fatores:

Fatores internos

Genéticos: significam que a criança pode ter uma predisposição genética, ou seja, se numa família os pais ou parentes apresentam excesso de peso, a chance da criança nascer com tendência a ser obesa é maior.

Metabólicos: é importante saber que o metabolismo, isto é, o modo como o organismo de cada um funciona, varia de pessoa para pessoa. A crianças que nascem com o metabolismo que facilita o aumento de peso, sem que elas comam muito. A outras que, ao contrario, comem muito e não ganham peso.

Fatores Externos

Alimentares: os tipos de alimento, a forma de preparo, as preferências alimentares e o modo como comemos pode levar ao aumento da ingestão de alimentos, e conseqüentemente, ao consumo elevado de energia, o resultado é o excesso de peso.

Psicológicos: problemas emocionais ou psicológicos podem levar a criança a comer mais como um mecanismo de compensação ou defesa.

Diariamente, somos também bombardeados com propagandas de todos os tipos de alimentos e guloseimas, o que faz com que a criança e o adolescente entrem em conflito.

Atividade Física: o estilo de vida da criança reflete um fator muito importante no desenvolvimento da obesidade. Crianças que não fazem atividade física regularmente gastam menos energia em relação as mais ativas, acumulando mais gordura corporal por essa razão atividade física deve ser reconhecida como um componente essencial de qualquer programa de redução ou de controle de peso.

Quais são as complicações da obesidade?

A obesidade em crianças e adolescentes pode causar problemas de saúde, mas o preço emocional também é significativo. Os problemas psico-sociais podem ser depressão, baixa auto-estima, uma auto-imagem negativa e fuga de situações sociais com seus pares.

Problemas ortopédicos, complicações cardiovasculares, condições respiratórias, problemas de pele, intolerância a glicose e doenças gastrintestinais muitas vezes aparecem durante a vida de uma criança obesa. A obesidade é a causa principal de pressão alta e diabetes Tipo 2, doenças estas que já estão aparecendo em crianças com 3 e 4 anos de idade.

Em um estudo realizado nos Estados Unidos, crianças expressaram atitudes negativas em relação aos seus pares obesos já a partir do jardim da infância.

Por que cuidar do peso e da saúde é importante mesmo em crianças pequenas?

Estudos indicam que 14% das crianças obesas aos 6 meses serão adultos obesos; 40% das crianças obesas aos 7 anos de idade serão adultos obesos; 70% das crianças obesas entre 10 e 13 anos de idade serão adultos obesos e 80% dos adolescentes obesos serão adultos obesos.

O que pode ser feito?

A família é determinante no tratamento da obesidade em crianças e adolescentes. Muitas das decisões (o que comprar, o que preparar para as refeições, aonde comer - em casa, restaurante, fast food - não são decisões tomadas pelas crianças e sim pelos pais). Além disso, o exemplo da família é fundamental, a mensagem para as crianças nunca deve ser, "você é gorda e precisa perder peso". Ao invés disso, deve ser, "todos nós precisamos comer corretamente e ser ativos para nos tornarmos saudáveis".

Estudos indicam que pais que praticam esportes levarão seus filhos a praticarem atividades físicas. Sinceridade é fundamental em uma família: obesidade não é defeito de personalidade. Existem vários fatores que contribuem para o surgimento deste quadro e somente com compreensão pelas dificuldades e respeito pelo desejo das crianças e adolescentes é que o jovem poderá aprender cuidar de si, que no fim das contas, é o objetivo dos pais.

Abaixo estão algumas coisas que os pais podem fazer para ajudar seus filhos a prevenir e tratar a obesidade.

Se movimente!

- Tente realizar algo ativo todos os dias por pelo menos 30 minutos na maioria dos dias.
- Ande sempre que possível: para escola, para uma loja, para a biblioteca, para o shopping, e em volta do quarteirão depois do jantar.
- Use as escadas ao invés do elevador.
- Planeje atividades familiares que envolvam exercícios, como andar de bicicleta, dançar, caminhar e nadar.
- Limite à tv, o computador e o videogame para uma média de uma hora por dia.

Coma corretamente!

- Faça as refeições em família sempre que possível.
- Não assista tv enquanto você está comendo.
- Ofereça somente comidas saudáveis, exceto em ocasiões especiais. Por exemplo, peça para seu filho escolher entre uma maçã e pipoca sem manteiga, não entre uma maçã e um cookie.
- Ensine seu filho a não pular refeições; nós temos uma tendência de comer mais na próxima refeição.
- Limite alimentos com muito açúcar ou gordura, como fast food, pizza, refeições gordurosas, bolos, cookies, doces, refrigerante e sucos.

últimas dicas

Faça mudanças pequenas e graduais e tente fazer com que sejam permanentes. Não procure soluções rápidas e não siga dietas de curto prazo ou programas de exercício que prometem rápida perda de peso.

Tenha paciência! Crianças, como adultos, não se tornam sobrepeso da noite para o dia, e pode levar muitos meses e até anos para modificar hábitos não saudáveis para hábitos saudáveis. Mesmo pequenas mudanças podem gerar grandes resultados.

Seja um exemplo. Lembre-se, seu filho vai fazer como você faz, não como você fala. Seu filho vai se alimentar saudavelmente e se exercitar regularmente se você também fizer isso. E claro, você também vai estar mais saudável.
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